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3 textos de projeção filosófica...

 
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Amigos...






Quando eu morrer, estranhos vão disputar quem carregará meu caixão; espero ser enterrado num dia de sol ao romper primaveril. Por quê? Ora, só porque vejo nessa estação a volta dos colibris bicando
as flores e escuto a melodia dos pardais, em disputa com as pombinhas, saltitando pelas migalhas que
o vento arrasta pelo chão. É o exemplo da natureza em relação à própria vida. É a subsistência de seres frágeis, independentes da vontade humana. Quando eu morrer, tomara que não chova porque,
ainda em vida, fico pensando nos estranhos a carregarem meu caixão à cova e maldizendo meu nome a plenos pulmões: "Esse infeliz-desgraçado tinha que morrer justo hoje?" Ninguém é insubstituível.
Outras primaveras virão com suas flores e pássaros... Mas um ser único como eu, entre bilhões, até
que mereceria uma boa despedida; contudo não tenho de quem me despedir, a não ser de mim mesmo.







>>>>>>>>>>







A dança dos vaga-lumes.






Talvez morrer seja ter viajado a vida toda sem ter ido a lugar algum. Bem, se já fui, fisicamente, eu
nunca saí de mim mesmo. Há algo em mim que transcende a compreensão: é indescritível. Há um filme em meu intelecto, repetitivo, que me leva aos mesmos lugares e situações. Há uma roda viva, elástica, que se desprende do eixo central e retorna ao seu ponto original. Não bastasse o declínio da força corporal anunciando a porta da velhice, penso hoje somente na transparência de minhas ideias renováveis dentro de mim. Penso na energia emanada da mãe-terra
e do espaço sideral. Quem sou eu? O que vim fazer aqui?... Sou apenas uma célula receptora, um catalisador, o elo duma corrente interminável, um dente na engrenagem onde gira o sonho de
um dia voar com asas de chumbo numa viagem alucinógena ou, numa pausa descansante, sentir-me como um poste no meio do nada em que os passantes vejam e se perguntem: "O que aquele
poste inútil está fazendo ali?" -- Senhores passageiros com destino ao nada: a ilusão é a viagem da vida toda. Corpos ficarão pelo caminho e pontinhos translúcidos, como balõezinhos, se projetarão
no espaço tal dança de vaga-lumes.







<<<<<<<<<<<





Objeto.







Lá fora, a brisa leve, o luar esplêndido. Sentia-se desvirginada por um belo homem, envolvente,
de toques suaves com cheiro de hortelã, e que soletrava murmúrios de amor em seus ouvidos. Laila,
cantarolava: 'lá-i-lá, lailá-lá', num piano ora fraco, ora forte, talvez Liszt. E saiu da câmara de almofadas coloridas com um risco de sangue descendo-lhe entre as coxas, feliz por sentir-se a única fêmea, entre tantas, favorecida por momentos tão prazerosos ao limite do clímax que nunca sequer imaginara. Despertou repentinamente com o marido rústico, sujo e mau-cheiroso, já suado pelos
trabalhos matinais, simplesmente pondo-a em posição para o coito egoísta, unilateral. Tão frígida e misteriosa, calada sobre seu segredo aos primeiros raios de sol, esnobava
de seus princípios conjugais.
E não foi a única vez que, adúltera em pensamentos, isolava-se da mediocridade e mentia pra si mesma à espera de seu complemento
que um dia chegaria para levá-la pra bem longe dali. Iria, sim, ela iria com o coração partido por
não ter ideia de quem cuidaria de suas flores...

NA. "Lembre-me de "A mulher adúltera, de Camus."





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Fecha 28/9/2019 22:59:26
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